5.6.07

Chikungunya


Devido à globalização, assiste-se a uma interdependência crescente entre povos, regiões e países, processando-se as relações económicas e sociais a nível mundial. Fruto de todo este processo há uma intensa circulação de pessoas e bens, de e para os pontos mais recônditos do globo, o que tem, necessariamente, implicações ao nível da segurança.

Sendo que o conceito de segurança[1], tal como refere Kofi Annan[2], envolve três significados diferentes:
“A ausência de necessidade, a qual pode ser promovida através de iniciativas que reduzam a pobreza, atenuem a fome, aumentem o acesso infantil à educação básica, facilitem os processos de tratamento médico, particularmente aqueles referentes a doenças como a malária, e sensibilizem as populações para os riscos de outras doenças graves como, por exemplo, a SIDA”.
“A ausência de medo, a qual pode ser promovida através de iniciativas que reduzam o número e a gravidade das ameaças existentes aos recursos essenciais à sobrevivência dos povos, sejam elas guerras civis, guerras transnacionais, governos opressivos, armas de destruição maciça, actos terroristas, grupos violentos organizados ou outros”.
“A ausência de obstáculos a uma vida digna, que são vagamente entendidos pela organização como impedimentos à promoção da democracia, do estado de direito e dos direitos internacionais, e que, segundo Annan, podem ser contrabalançados através de iniciativas que visem integrar aquelas componentes governativas na textura socio-política das nações”.

Logo, esta conceptualização também abrange a denominada segurança sanitária, ou seja, o estado de tranquilidade ou de confiança que resulta da ausência de risco, perigo ou perturbação relativamente a este domínio; o qual assume uma importância determinante nos tempos que correm, na medida em que fruto do processo de globalização, aumentou, para níveis nunca antes vistos, a possibilidade de disseminação de determinado tipo de doenças à escala planetária.

Como paradigma desta situação, basta referir o vírus chikungunya, uma doença infecciosa tropical, identificada pela primeira vez na Tanzânia em 1952, transmitida por mosquitos do género Aedes, a qual causa febre, cefaleias, artralgias e mialgias, um exantema maculopapular ou morbiliforme.

O último surto ocorreu em 2005-2006, nalgumas ilhas do Oceano Indico (Reunião, Comores, Maurícias, Seychelles, Madagáscar), só na ilha da Reunião terá afectado cerca de 266.000 pessoas, desta zona expandiu-se em direcção à Índia[3]. Em direcção a estas ilhas há um intenso fluxo de turistas, designadamente, de origem francesa, constando que só em 2004, terão visitado algumas daquelas ilhas cerca 480.000 franceses. Segundo investigadores do Instituto Pasteur de Paris[4], terá ocorrido uma mutação num gene do vírus que facilitou a sua adaptação ao mosquito Aedes albopictus, o qual passou a ser também seu vector além do Aedes aegipty, estando o primeiro presente em França na zona dos Alpes-Maritimes e Haute Corse.

Da conjugação de todos estes factores poderia facilmente resultar uma epidemia, nalgumas zonas de França, estendendo-se rapidamente ao resto da Europa. Daí que a nível interno devam tomadas medidas que permitam enfrentar situações deste género. Podendo-se, desde logo, começar por dar uma particular atenção aos vectores de disseminação, nomeadamente aos insectos, procedendo-se à sua cartografia[5].

Neste capítulo, pode ser desempenhado um papel extremamente importante pela estrutura SEPNA/GNR, através da montagem de armadilhas[6] que permitam a captura de diversas espécies, em locais devidamente georeferenciados, sendo posteriormente remetidos à entidade competente na matéria, a qual no caso em apreço deverá ser o INSA – Instituto Nacional de Saúde Dr Ricardo Jorge[7], podendo-se assim antecipar a propagação de algumas doenças em território nacional, dando margem de manobra para que possam ser tomadas as decisões adequadas numa fase ainda embrionária.

© Túlio Hostílio

[1] Disponível em http://www.jornaldefesa.com.pt/conteudos/view_txt.asp?id=439, consultado em 05/06/2007.
[2] Disponível em http://www.un.org/largerfreedom/, consultado em 05/06/2007.
[3] Tendo a Direcção Geral de Saúde em Portugal, lançado um aviso sobre esta conjuntura, em 02 de Maio de 2006, disponível em http://www.dgs.pt/, consultado em 05/06/2007.
[4] Disponível em http://www.rtp.pt/index.php?article=240693&visual=16, consultado em 05/06/2007. Site do Institute Pasteur, disponível em http://www.pasteur.fr/english.html, consultado em 05/06/2007.
[5] Em Portugal haverá algo de similar para fins agrícolas conforme Despacho nº 9313/2003 (2ª série) publicado no DR nº 110, 2ª série de 13 Maio 2003.
[6] Veja-se a este propósito o que se fez no âmbito do programa nacional de luta contra o nématodo da madeira do pinheiro, disponível em www.dgrf.min-agricultura.pt/prolunp/relat/Relatorio_vector2000.pdf, consultado em 05/06/2007.
[7] Disponível em http://www.insarj.pt/site/insa_home_00.asp, consultado em 05/06/2007.

20 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Inteiramente de acordo consigo.Trata-se de uma excelente oportunidade para a Guarda revelar mais uma das suas valências,agora através do SEPNA,afirmando-se simultaneamente como instituição moderna e cada vez mais adaptada aos tempos modernos.Contudo,creio,iniciativas deste teor carecem de prévia coordenação com outras organizações (Direcção geral de Saúde?Ministério da Agrcultura?),que definirão as espécies a capturar,sua localização periódica,ciclos migratórios,etc.
Sobre esta coordenação,face ao que tenho visto,é que tenho algum cepticismo.
De qualquer modo,a ideia é boa e cá fica à espera de que quem de direito a queira aproveitar.
Cumprimentos.
SANDOKAN

6.6.07  
Blogger bela lugosi`s dead disse...

excelente post e a introdução sobre a globalização está magnífica.

6.6.07  
Blogger mymind disse...

pois mais vale prevenir do que remediar!
bom post.

6.6.07  
Blogger Claudinha disse...

Olá, vim até seu blog pelo convite feito por e-mail.
Acredito que este atraso de vida, este problema com vírus, se deve a uma completa falta de atuação das autoridades sanitárias, da falta de comprometimento para com seu dever a cumprir. O Aedes pode ser combatido de várias maneiras. Há pessoas que lutam, mas não são maioria.
Bela abordagem a sua, um texto rico em informações. Abraço!

6.6.07  
Blogger Rafeiro Perfumado disse...

Túlio, uma vez que não há nenhuma jogada farmacêutica nesta doença, não vai ter muito relevo, mesmo se causar mais mortes que a já cansativa Gripe das Aves. A doença é ela própria um negócio, e neste não estou a ver ninguém a apostar. Excelente texto.

6.6.07  
Blogger RB disse...

Vê-se que estamos na presença de um especialista.

6.6.07  
Anonymous Anónimo disse...

"nascem como cogumelos na floresta.." (Túlio hostílio)

Obrigado pela visita.

O «instituto» da responsabilidade objectiva, pelo risco, ou por factos lícitos, é, sem dúvida, um grande avanço no sentido da correspondencia do instituto às necessidades da vida moderna, sem perda de justiça intrínseca. Porém, não é ainda suficiente para cobrir todas as situações de dano que, cada vez com mais frequência, ocorre e que, por falta de prova de um outro pressuposto, ficam impunes e por indemnizar. A solução parece passar pela aposta em novos instrumentos jurídicos para a protecção da segurança nos seus mais váriados aspectos.
Enquanto em Portugal não existir uma cultura de segurança não será considerado a importância nacional do Direito Comunitário do ambiente e segurança. Este decorre essencialmente de duas características: aplicabilidade directa e sua primazia sobre o Direito Nacional.
Infelizmente, em Portugal, raramente, em sede de julgamento, é evocado a primeira caractéristica e para contornar a primazia sobre o Direito Nacional são criadas valências que, tal como estão formadas, raramente são alcançados os fins das directivas comunitárias mesmo quanto estas são transportadas para o direito nacional...ninguém cumpre - nem o Estado - e raramente há punições.

Abraço

"ABUSUS"

7.6.07  
Blogger Gi disse...

Excelente espaço Túlio ; Temas actiais e bem expostos.

Obrigada pela visita ao meu cantinho. Noite feliz.

7.6.07  
Blogger Flôr disse...

Olá, bom dia e um excelente feriado :)

Gostei da sua visita pelo meu jardim... foi um prazer :D volte sempre que quiser... ouvir os desabafos de uma flor a desabrochar!


Quanto ao seu cantinho, gostei imenso... é realmente um canto didáctico... parabéns! :)

Aqui aumentamos a nossa cultura geral, bastante interessante! Dei um "giro" por aqui e apercebi-me que os seus posts são temas bastante actuais e de interesse para todos nós.. muito interessante...

Irei "plantá-lo" no meu jardim :)
que é como dizer linkar o seu blog eheeheeh

Deixo um beijinho florido e com todo o respeito


Flor

7.6.07  
Blogger Bichodeconta disse...

Ó amigo o assunto é de tal forma importante, e tão preocupante.. Infelizmente não é um assunto mediático.. Logo é melhor não falar dele.. Depois apregoam ideias .. Medidas.. Mas o lixo continua ao abandono com todas as consequencias que daí podem advir.. É Portugal no seu melhor... Parabéns.. Vou voltar aqui para ler mais atentamente as suas opiniões... Lindo o cantinho, aconchegante, bem estruturado..

7.6.07  
Blogger Suspiros disse...

Pena que a aposta na prevenção e, sobretudo, na acção, seja tão rara. Porém, nunca se detenha!
:)

7.6.07  
Anonymous Bocage disse...

Eh pá isto por aqui é sério de mais para mim.....gosto mais de anedotas badalhocas....

7.6.07  
Anonymous Anónimo disse...

são sempre lições do que se passa no mundo, sempre! parabéns sofia

8.6.07  
Blogger Cusco disse...

Olá! Obrigado pela simpática visita e comentário nas minhas Viagens!
Fico com a certeza de que sempre que voltar aqui irei aprender algo e isso é muito bom.
Um abraço e
Até breve!

8.6.07  
Blogger Alexandra disse...

Excelente blogue, com temas deveras interessantes. Agradeço a passagem pelo meu, pois só assim fiquei a conhecer esta "base de dados" tão bem conseguida.

Quanto ao seu post, para além de ter informação preciosa, não poderia estar mais de acordo. Todavia e depois de ter já visto tanta coisa acontecer, começo a pensar que ideias e competência não faltam neste país. O que de facto não há é união de esforços e entidades ( as chamadas equipas multidisciplinares) de forma a que haja um encontro de informação que leve ao sucesso. Infelizmente!
Mas, pode ser que esteja enganada!

Bom fim de semana!

8.6.07  
Blogger José Alberto Mostardinha disse...

Viva:

Gostei imenso de conhecer o teu blogue e vou ficar "cliente".
Obrigado pela tua visita e comentário no Estados Gerais.

Um abraço,

8.6.07  
Blogger Flôr disse...

Já está "plantado" no meu jardim.. :)

Passei por aqui.. e "servi-me" de um pouco mais de cultura.

Um abraço florido da Flor :D

12.6.07  
Blogger ≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Vale sempre a pena passar por aqui, aprender sempre.
beijinhos

13.6.07  
Blogger astrid disse...

Túlio
Obrigado pela tua visita a Alice.
Sobre segurança?
È uma grande responsabilidade. Eu terei todo o gosto em ler, com minúcia.
Bom fim de semana

15.6.07  
Blogger Menina_marota disse...

Um excelente texto da realidade existente.

Gostei de te ler

Um abraço ;)

15.6.07  

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